Dilson Lages Monteiro Sábado, 31 de julho de 2010
MEIAS VERDADES  
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Quando os sonhos não envelhecem

Quando os sonhos não envelhecem

 

M

aria Aparecida da Silva acorda todos os dias bem cedinho, lá pelas 5 horas ela já está de pé. Maria Aparecida da Silva tem uma vida dura, mas jamais reclama da sorte.

Maria Aparecida da Silva ou Cidão, como os vizinhos a chamam carinhosamente, tem a força de dois homens. Isso mesmo, se precisar, Cidão bota pra quebrar, dá porrada, xinga palavra feia, ameaça, põe à mostra seus últimos dentes. Depois, bom, depois chora sozinha no escuro do quarto. Maria Aparecida da Silva ou Cidão, como queiram, é uma mulher batalhadora, enfrenta os problemas que a dura vida vai lhe impondo. Mesmo porque não há para quem pedir socorro. 

Ela é o esteio da casa, ou melhor, do barraco, pequeno e limpo barraco. Aqui, limpo tem os dois sentidos: denotativo e conotativo. No barraco de Maria Aparecida da Silva existem poucos móveis, isto é, contando como móveis, os quatro caixotes que servem de cadeira, a placa sinaleira que ela achou e a fez “mesa” e a cômoda de três pés que ganhou dum vizinho.

A vida de Maria Aparecida da Silva é realmente dura, mas também feliz. Os momentos de felicidade são materializados nos gestos de Tonico, seu neto de dez anos. Tonico puxou a vó na obstinação, na teima, no sorriso cativante. Tonico, como a maioria de seus coleguinhas, não conheceu o pai. A mãe, que trabalha em casa de gente rica, só chega no fim de semana. Tonico é muito apegado a vó. E quando sente medo, frio, ou chora, é a vó quem lhe dá abrigo.

Maria Teresa é uma moça triste. Não puxou em nada a mãe, Maria Aparecida da Silva. Depois que engravidou de Roberto Pretinho, jogador inveterado e metido a valente, saiu de casa e só um ano depois voltou. Voltou com um filho pra criar e sem os três dentes da frente. Cidão, ou Maria Aparecida da Silva, os acolheu entre lágrimas e, como sempre diz, “onde come dois, come três, quatro, cinco”.

Tonico é um sonhador, disse que vai ser jogador de futebol quando crescer e viajar “pra oropa”. E que a primeira coisa que vai fazer é dar uma “casona” pra vó. Maria Aparecida da Silva, às vezes ri daquilo, ri pela inocência de Tonico, ri porque, às vezes, a gente precisa rir sem ter motivo. Maria Aparecida da Silva estudou pouco, cedo ela teve que escolher entre os cadernos e o trabalho de faxineira. Escolheu a segunda opção. De todos os sonhos que tinha, o de estudar foi o que ela mais sofreu ao colocá-lo na gaveta do tempo.

Maria Teresa também estudou pouco, mas quando ia à escola “matava” aula pra ficar beijando Roberto Pretinho. Pra cada beijo, pra cada abraço de Roberto Pretinho, mais difícil ficava atravessar o portão da escola. A matéria que ela mais gostava era “Roberto Pretinho”. Aprendeu logo cedo a geografia do prazer, a linguagem do sexo, a ciência da fertilidade proibida, as relações políticas do “dar” e do “receber”. Sem dúvida, Roberto Pretinho era muito mais atraente que os velhos livros da escola.

Tonico ainda é novo e pode sonhar à vontade, vai ser jogador famoso e ter um montão de namorada, igual ao Fenômeno. Vai ter carrão e cordão de ouro pendurado no pescoço. Maria Aparecida da Silva sabe que os sonhos não envelhecem. “Sonhar não paga imposto”, diz  pra ela mesma. Maria Teresa não sonha, Roberto Pretinho levou todos os seus sonhos quando a trocou pela Marlene do Salão “Star”.

Maria Aparecida da Silva, ontem, sentiu uma pontada no peito.  Seu coração disparou, a boca rapidamente secou e seus olhos embaçaram anunciando lágrimas.  Maria Aparecida da Silva matriculou-se no curso noturno do supletivo “Sonhar é Possível”, na mesma escola que Tonico estuda antes de ficar famoso e rico. A mesma em que Maria Teresa “estudava” Roberto Pretinho. É tarde... podem pensar. Não, não para Maria Aparecida da Silva. Não para a mulher que luta e sorri para a vida e pessoas com a mesma naturalidade. É tarde...mas ainda não é o final. Maria Aparecida da Silva agora se sente especial, vai ser estudante do Curso Noturno do Supletivo “Sonhar é Possível”.

Tonico ri da novidade, Maria Teresa debocha da loucura da mãe e espera que Roberto Pretinho volte, para ela também voltar a sonhar.

Maria Aparecida da Silva aguarda ansiosa pelo primeiro dia de aula, o dia em que poderá finalmente reabrir a gaveta onde adormecem seus outros sonhos.

 

 

                                                           cláudio rogério gonçalves

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